Entre os dias 13 e 14 de fevereiro de 1945 — terça-feira gorda e quarta-feira de cinzas — 78 anos atrás, a cidade alemã de Dresda foi destruída pela aviação aliada; uma desnecessária e selvagem ação determinada pelo próprio Churchill. Hoje, entretanto, há discussão sobre o número de vítimas, estando os agentes da correção política empenhados em diminuir o total dos mortos, para que não se ponha em dúvida a primazia moral do atlantismo. Há uma série de barbaridades nos estertores finais da II Guerra Mundial que demonstra a evidente sede de sangue por parte das democracias vencedoras, como o bombardeio brutal de Pforzheim, dez dias depois de Dresda, em que morreu quase um terço da população. Os japoneses também sofreram de maneira atroz essas campanhas do terror aéreo aliado, que incendiaram frágeis cidades de madeira e papel, como Tóquio, cujos danos foram ainda mais pesados do que aqueles que sofreram as capitais alemãs. Para fechar com chave de ouro sua ação de libertação, o presidente Truman decidiu liberar a energia atômica sobre o corpo inerme do Japão em Hiroxima e Nagasaque.
E anos depois veio o napálmi na Indochina, a devastação de Belgrado, as bombas inteligentes sobre Bagdá, o censuradíssimo apocalipse de Mossul e… e… e… Localidades sem conta foram arrasadas pelo ar, submetidas à vindita americana e sem meios de defesa.
Aqui não vamos discutir detalhes técnicos nem históricos, mas concepções políticas e até estéticas. A guerra aérea é a forma de combate americana. Ainda que ideado pelos godemes, o bombardeio estratégico é hoje monopólio dos Estados Unidos e sua forma ideal de emprego da força bruta nas suas intervenções. Os Estados Unidos são a sua aviação. Nela, o império do dólar tem o equivalente das legiões romanas e dos terços espanhóis. A lição mais importante de 1945 foi que a guerra travada pelos meios aéreos custa menos mortos a quem a domina: podem ser destroçados as redes de transporte, as habitações, os recursos alimentares e os serviços essenciais para a vida civil — a preço bastante em conta. Se a isso um aliado for somado, como a URSS em 1945, disposto a deixar milhões de soldados no campo de batalha para vencer o exército inimigo frente a frente, a guerra se torna exequível, já que os esquifes correrão por conta do sócio. Outrossim, o ataque aéreo tem um caráter muito técnico e asséptico: os seus protagonistas — o piloto do avião ou os oficiais que ativam ou disparam um míssil — não se sujam de sangue, não se envolvem com o que ocorre sob a tormenta de fogo que desencadeiam. Nos seus pássaros de ferro, eles passam, olimpicamente, a quilômetros acima dos resplendores do Hades. Voltam limpinhos para casa, como se não houvessem carbonizado nenhuma criancinha. Para um país tão puritano e hipócrita como os Estados Unidos, tão avesso ao contato físico, à contemplação direta da enfermidade, da pobreza e da morte, a guerra aérea é manto para cobrir os cadáveres e as ruínas aos olhos dos telespectadores, com o que os holocaustos sem campanhas publicitárias ficam parecendo imagens de mais um videojogo.

Os americanos, tais quais os godemes, levam a marca da parcimônia no derramar o sangue de seus cidadãos, mas se mostram dissipadores quando se trata do sangue de seus aliados ou inimigos. A Rússia conheceu parte disso nas duas Guerras Mundiais. Além disso, Hollywood explora maravilhosamente bem as proezas de seus belatores e mete seu “heroísmo” no cérebro dos espectadores. Quantas vezes, por exemplo, os filisteus de prontidão não nos disseram que sem o Dia D na Normandia a Europa não teria derrotado a Alemanha de Hitler? O que aconteceu, entretanto, é justamente o contrário disso: Stalingrado, Kursk, a Operação Bagrationi… foi na Rússia que a Alemanha sangrou. Basta lembrar que o soldado da Wehrmacht que combatia os anglo-saxões se considerava um felizardo, como que gozando período de licença. A região para onde ninguém queria ir era a da Frente Oriental.
A guerra aérea é muito americana, muito calvinista e muito burguesa. Não pretende a destruição do exército inimigo nem de sua indústria, mas sim das redes de transporte, dos meios de vida da população, atua como um agiota que pouco a pouco estrangula a sua vítima. Em grande parte, isto se deve à sua visão economicista do mundo, que despreza o valor militar e foca no mais prático. Um país não pode funcionar sem víveres, rodovias, energia, ferrovias. Que o preço dessa estratégia seja a morte de civis não combatentes às centenas de milhares pouco importa. O tipo penal chamado “genocídio aéreo” não existe.

Por outro lado, o exército ianque de terra não corresponde àquela força exemplar mostrada nos filmes a realizar façanhas marciais. Na Coreia, no Vietnã, no Afeganistão não foi capaz de sustentar uma guerra contra um inimigo resoluto, determinado a morrer por uma causa, ao qual os bombardeamentos não causam tantos danos em razão de seu atraso econômico. No final da Segunda Guerra Mundial, seu péssimo desempenho contrastou com a eficácia soviética: os ianques avançavam com o coração na mão pela França, enquanto os russos cobriam distâncias imensas em duas semanas. O exército americano é estupendo em termos de potência de fogo para as ações fulminantes, mas carece das virtudes de constância e autossacrifício dos exércitos clássicos: serve para matar, mas não para morrer.
Os bombardeios criam o caos. E nisso os Estados Unidos são mestres: onde pisam os ianques, o mato não cresce. Foi assim no Vietnã, no Camboja — alguém se recorda do regime de Lon Nol? Sua inépcia e sua corrupção eram tais — e financiadas por Kissinger, que deram a vitória de bandeja para o Khmer Vermelho. A mesma coisa aconteceu no Oriente Médio com os frutos amargos das “primaveras árabes”, como também no Afeganistão, quando este país foi conduzido à “democracia” e à “liberdade” em 2001. Sob o poder ianque e sua tecnologia, o mundo ficou muito mais inseguro do que quando os godemes e gabachos mandavam e desmandavam, mudando o mapa-múndi com lápis, canhões e baionetas.

O empenho dos gringos em fazer a guerra pelo céu, sem fixação permanente em terra, deu a suas invasões o caráter mais de expedições de saque do que de uma construção imperial. Os Estados Unidos arrasam um país e logo se retiram, deixando a corrupção e a guerra civil como sinal de sua passagem. O resultado do conflito é o que menos importa: Washington estará realizada pelos gastos realizados: os mísseis lançados e as bombas, os aviões construídos ou modernizados, as bases aéreas, seu equipamento, os experimentos militoaéreos in anima vilipelo bemdaciênciaetudo o maispela felicidade dos fornecedores que assinam suculentos contratos. Todo esse sangrento “investimento” é o que empurra a economia ianque para adiante. Todos saem ganhando, menos as vítimas da “democratização”, aqueles que vivem, sobrevivem ou morrem no solo, entre os quentes escombros.
Os Estados Unidos reinam nos céus e voam como volúvel furacão de fogo.
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Fonte: El Manifiesto Autor: Sertório. Título original: Dresde: bombardeos democráticos. Data de publicação: 14 de fevereiro de 2023. Versão brasilesa: Chauke Stephan Filho.
